03-Tempo das vacas gordas
Dentro do possível tínhamos certo conforto, pois no orfanato havia até uma escola, pequena e bem simples, na verdade era duas salas de aulas, com duas professoras, uma de português e a outra de matemática. Por isso sabíamos ler e escrever. Gostávamos de colorir como outra criança qualquer a única diferença era não termos uma família para admirar o nosso trabalho, a tia Lourdes fazia o possível, mas éramos muitos e isso se tornava uma tarefa impossível, visto que havia outras coisas para fazer; Pois haviam empregados, e ela era diretora.
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| Sala de aula do Orfanato |
Realmente era uma tarefa muito difícil, pois no orfanato havia de recém nascido á adolescente, e era necessária uma atenção muito grande, pois a responsabilidade era inteiramente do casal. Mas Deus os ajudava em tudo, e muito difícil era ver uma criança doente. Como se ver na foto, uma hora muito esperada por todos era a hora das refeições, pois para tudo tinha horário, não comíamos um biscoito fora do horário, devido ao número grande de crianças, pois com certeza isso traria uma desorganização completa.
uma criança que foi deixada pela mãe ainda recém nascida. Assim como eu, foi criada sob os cuidados da tia Lourdes, e seu esposo. Interessante que dela mesma não tinha filhos, mas por adoção tinha algumas dezenas.
Às vezes não entendemos o que Deus tem para nós, ou melhor, custamos a entender, mas quando isso acontece, vemos como Ele é maravilhoso, não é um Deus egoísta, e sim misericordioso. Pois cuida dos seus, e jamais desampara aquele que o teme, Deus é fiel, ainda que não sejamos, mas Ele permanece fiel. Só sabe realmente o que é não ter um lar, quem já passou por isso. No mínimo é não ter privacidade, não ter nada só seu, como roupas, sapatos, brinquedos, ou um simples chinelo.
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| Ilustração |
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É você nunca poder dizer que aquela roupa que o outro está usando é sua. Quando você gosta de algo, tem que torcer para vesti-lo novamente.
Quando penso no casal de missionários, fico impressionada, pois como pode duas pessoas se dedicar tanto a outras! Eles poderiam simplesmente “curtir” a vida sem preocupações, mas não, preferiram, se dedicar a quem realmente precisava de amor, afeto... Muitas pessoas confundem a obra missionária, acham que é só chegar á um púlpito e pregar, acham até que bastam ser “avivalistas,” ou visitar outro País, Acham que é só chegar dizendo que a viagem foi maravilhosa! É muito mais que isso! Tem que realmente haver uma renúncia. A obra missionária deve ser de suprema importância e cada servo de Deus deve ser conscientizado disso.
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A expectativa de serem adotadas era grande, pois todos queriam ter sua família, seu próprio quarto. Podia ser ver isso nos olhinhos de cada um, mas principalmente nas maiores, pois elas sabiam que suas chances eram bem pequenas. Algumas em dias de visitas tentavam se arrumar o máximo que conseguiam, mas mesmo assim era difícil se destacar, pois as pessoas que chegavam ali, já iam com a intenção de adotar crianças menores. Diziam que era mais fácil de a criança se acostumar.
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| (O desejo de terem uma família era muito grande) |
Infelizmente a maioria crescia dentro do orfanato, por mais que a tia Lourdes se esforçasse, não conseguia dar o que elas realmente queriam, pois era difícil dar atenção a uma só criança, ela procurava distribuir o seu amor de igual para todos. Muitas vezes ela orava a Deus, pedindo-O que Ele preparasse um lar, para aqueles que tanto queriam, pois o desejo dela era ver todos bem colocados. Tivemos no orfanato uma menina que chegou lá pequena com seus irmãos e saiu de lá casada, com um rapaz que de vês enquanto ia lá “visitar a igrejinha.”
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| (Em dias de visitas éramos todos vestidos iguais, por isso ficava difícil se destacar) |
Eu não queria ser adotada, quando estas pessoas chegavam lá, eu me escondia. A irmã Lourdes me dizia que eu tinha grandes chances de ser adotada; mas eu era feliz ali. Talvez por ter sido criada por ela, eu a tinha como minha verdadeira mãe. Amava e a respeitava muito, sentia-me protegida. Eu era muito tímida, sentia vergonha das pessoas que iam visitar o orfanato; sempre que podia me escondia e só saia novamente depois que elas iam embora.
As outras crianças zombavam de mim por isso; E outras até me entregavam, (aos visitantes) tornando as coisas mais difíceis, pois aí que as pessoas queriam me conhecer. Mas a tia Lourdes percebendo isso, me protegia, e eu me sentia segura.
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| As quatros crianças |
A tia Lourdes separava as meninas maiores para ajudar a tomar conta das crianças menores, isso facilitava muito o serviço, e preenchia o espaço vazio. Então nós as maiores adotávamos as menores como filhas, dávamos banhos, penteávamos os cabelos, escolhíamos as roupas que elas iriam vestir, as colocávamos na fila para as refeições, etc. Isso para nós era maravilhoso, pois passávamos para as crianças menores, o carinho que gostaríamos de receber, e é claro a tia Lourdes via isso e ficava muito contente, pois sabia que assim estava amenizando o sofrimento de muitas ali.
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| Presentes no final do ano |
Quando aproximava a tão sonhada festa, todos ficavam muitos ansiosos, pois estava chegando o grande momento, finalmente iríamos comemorar o nosso aniversário. Colocávamos a melhor roupa, o melhor sapato, e tentávamos melhorar o visual o máximo possível, pois para nós aquele dia seria inesquecível; Pois além de comemorarmos, podíamos chamar alguém conhecido para estar conosco; é claro que sempre escolhíamos alguém que ia à Igrejinha, pois eram as únicas pessoas que conhecíamos mais de perto. E isso realmente era fascinante...
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| (O difícil era comer o bolo do lado do “inferno”) |
A tia Lourdes procurava sempre falar do amor de Deus a nós, ela usava vários meios para isso. Ensinávamos a amar, a perdoar e a respeitar o nosso próximo, seja ele quem fosse. Muitas vezes falava conosco usando até mesmo a natureza, dizendo que o Criador havia feito tudo. E ficávamos maravilhados com tudo aquilo. Uma vez ela fez um bolo, e ele nos falava dos dois caminhos (Céu e inferno) tudo era bem interessante, era um jeito bem divertido de aprender, agora o difícil era comer o bolo do lado do “inferno”.
Havia algumas pessoas ricas que gostavam de ajudar o orfanato, levando principalmente alimentos. Inclusive eram elas que pagavam o salário dos empregados. Pareciam muito simpáticas, e uma vez por mês iam lá levar donativos. Tiravam um tempinho até para brincar com algumas delas. Para nós que praticamente nunca saíamos; Qualquer um que chegasse lá, era a maior novidade, principalmente se levassem balas, pirulitos e até chicletes. Uns voltava para a visita, mas a maioria nunca mais aparecia; Talvez por ter já conseguido o seu objetivo de “bons cidadãos”.
Eu aprendi muito ali no Orfanato, o casal de missionários, com sua simplicidade, nos faziam conhecer e amar a Deus Aprendemos realmente a conversarmos com Deus, e fazíamos isso com prazer,a quantidade de oração era grande, e sabíamos que Deus as estava ouvindo,e isso significava muito para nós. A beleza desse momento era incomparável. Com certeza minhas palavras falham ao expressar minha profunda gratidão a estes servos do Senhor que me ensinaram a servir a Deus e a amá-lo; trabalhou incansavelmente juntos na fé, para nos ensinar a palavra, o caminho. Uniram seus corações em um só propósito, que era fazer a vontade de Deus. Hoje eu vejo que seus árduos e preciosos trabalhos, produziram frutos abundantes.
Dou toda glória a Deus, por ter nos feito conhecedor da sua maravilhosa palavra, por assim nos salvar, pois é assim que me sinto, salva por Jesus, que com certeza me resgatou das trevas, trazendo-me para a sua luz; e hoje pela sua misericórdia posso servi-lo na Igreja, na obra missionária.
Para nós era muito importante a chegada dos visitantes, pois sabíamos que eles levariam ali muitas novidades, como: O biscoito que passava na televisão... E eram sempre as mesmas pessoas, já as conhecíamos e gostávamos delas também.
Os anos iam se passando e muitas crianças iam crescendo dentro do orfanato, inclusive eu. Umas já haviam perdido os seus sonhos, por mais que quisessem, não conseguiam mais sonhar, pois a realidade estava por perto a todo o momento; outras estavam começando a sonhar, qual seria o final dele, ninguém sabia; Mas enquanto podiam com certeza, não iriam desistir. As experiências, nós levaríamos pro resto da vida, fossem elas boas ou ruins. É muito diferente ser criado em casa com os familiares, e ser criado dentro de um orfanato; Em casa por mais que sejam os problemas, a pessoa está em família, agora em um orfanato, uma simples comemoração como o dia da mãe ou do pai, já é bem complicado. A criança, o máximo que ela consegue sonhar, é como já disse, em ser adotado, ter uma família roupas etc. Ninguém lá sonhava em ser um médico ou professora, e sim apenas em ter um pouco de privacidade, um lar.
Ter um lar era o que realmente à maioria sonhava, Mas como já disse os sonhos com o tempo iam passando, e a realidade se tornando cada vez mais visível. Essa era a realidade, crescíamos ali, e víamos a maior parte de nossas vidas passando ali dentro daquele orfanato; sempre as mesmas pessoas, a mesma rotina. O que nos aliviava, era quando falávamos com Deus, pois mesmo pequenos que éramos, sentíamos a sua presença, e sabíamos que Ele era real; Era o único que tínhamos coragem de realmente contarmos os nossos segredos, as nossas vontades... A nossa esperança estava Nele, e assim como tínhamos aprendido, Ele iria nos tirar daquela situação, iria com certeza nos dar aquilo que realmente queríamos e que só Ele conhecia, pois era o nosso segredo. Ainda que esse desejo fosse realizado em longo prazo, não importava, pois o importante é que ele ia se realizar, essa era a nossa fé.
A tia Lourdes era uma pessoa bem alegre, podíamos ver que tudo que ela fazia era por amor. Um pequeno gesto seu, era motivo para todos nós ficarmos alegres. Ela conhecia o sofrimento de cada um, e por isso sempre que podia fazia alguma coisa bem divertida. Eu sonhava em ser como ela, pois a achava muito especial. Às vezes tentava imaginar, como podia uma pessoa, amar tanto outras pessoas; Pessoas que nem mesmo ela conhecia. Víamos que o seu único deseja era ajudar; Dar um pouco de conforto e carinho a quem realmente precisava,
Ela conhecia a todos, e chamava cada um pelo nome, outra coisa que me chamava atenção, era que mesmo sendo tantas crianças; ela sabia quando alguém estava realmente triste ou feliz.
Eu sei que assim como eu, muitas crianças guardaram aquilo que lhe fora ensinado, pois quando vemos pessoas assim, como aquele casal de missionários, é impossível esquecer, Principalmente no mundo em que vivemos hoje, cheio de interesse, maldades, egoísmo. Eu consegui, e assim como eu, creio que muitos também conseguiram; pois mesmo vivendo em um mundo tão inseguro, passamos aquilo que aprendemos que é o amor, o perdão, etc. Pois temos esperança em um Deus, que é único, e que nunca desampara os que Nele esperam.
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Algo que jamais esquecerei, (sou grata a Deus e ao casal de missionários por isso) é da Palavra de Deus, que é a Bíblia Sagrada. Pois aprendi a reverenciar e a amá-la; Tínhamos tanto respeito pela Bíblia, que a tia Lourdes a usava para descobrir algum culpado. Quando alguém fazia alguma “arte” e ninguém sabia quem era o responsável, ela primeiro perguntava, mas sem sucesso da resposta; ela então mandava que cada um de nós colocasse a mão encima da Bíblia, dizendo não ser ele ou não o causador da “arte” e assim era descoberta a pessoa; pois todos nós tínhamos muito medo de colocar a mão, e sairmos no mínimo “fulminados.”


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